sexta-feira, 3 de fevereiro de 2017

Coração universal. Que tal?

         Quanta honra para mim ter o meu novo texto publicado no "Justificando". Convido-os a ler e, se puderem, comentar. 






Segue a matéria na íntegra, disponível também no link: http://justificando.cartacapital.com.br/2017/02/03/coracao-universal-que-tal/


"A nossa Convenção de Nova Iorque consagrou o princípio do desenho universal, valendo dizer a idealização de ambientes, serviços, produtos e programas que possam ser usados, com muito conforto e com igual oportunidade, pela maioria esmagadora dos seres humanos.

A maravilha descrita somente terá sucesso se o coração humano igualmente for universal, ou seja, se a população tiver a grandeza de enxergar e acolher as diversidades de modo democrático, isonômico. A coletividade há que entender que as diversidades são como são e não como ela gostaria que fosse! Mas, de qual pedagogia iríamos nos valer para conquistar esse feito?

O desafio hodierno é instigar a sociedade para que reveja os defasados conceitos e preconceitos, de modo a, solidariamente, promover a verdadeira inclusão social.

Poxa, como seria bacana se, por exemplo, as pessoas com deficiência dessem o pontapé inicial e passassem a procurar os demais humanos excluídos socialmente, objetivando dialogar com esses outros sobre a opressão, ou vice-versa. Afinal, esta é suportada por todos nós. Eis o flagrante elo em comum com os integrantes desse sofrido conjunto de pessoas.

Então, com a harmonia e o encontro de ideias comuns agregaríamos, com sabedoria, na luta contra o uso da violência pela sociedade para nos sufocar e demonstrar autoridade, tirania, tão-só porque fugimos a fôrma da indústria da moda ditada pelo selvagem capitalismo que sugou os nossos cérebros faz mais de 200 anos. O ser que habita um corpo diferente do que é tido como padrão está excluído!

Essa sujeição, imposta contra nós pela coletividade, que caracteriza um injusto domínio pela força física e/ou psicológica, faz com que nos sintamos reprimidos, humilhados, sem forças nem vontade para reagir a essas inenarráveis condutas fascistas. Em inúmeras vezes os excluídos sentem-se quase humanos, apenas pela cor da pele (racismo), ou porque são imigrantes (xenofobia), ou pelas deficiências (pessoas com deficiência), ou pela idade (idosos), ou por serem mulheres (desigualdade por gênero), ou por serem de religiões distintas (intolerância religiosa), etc. Tudo por conta do preconceito e seguida discriminação que nos é imposta pelos humanos que se acham privilegiados, superiores. Esses sentem-se seres supremos!

Fato incontroverso é que o ser humano deixou de pensar e, por isso, vem sendo conduzido, tocado, como rebanho. Lembro-me, nesse momento, das ovelhas que precisam, obrigatoriamente, de um pastor, com o poder de seu cajado nas mãos, para protegê-las. Daí, quando o ambiente está calmo, sereno, com os lobos distantes e com as ingênuas ovelhas pastando, está o pastor com o seu cajado a dominar o pedaço. Pobre rebanho! Seríamos nós excluídos, quer dizer as ovelhas diferentes tidas como desgarradas ou marginalizadas? Quem é o nosso pastor? Quem somos nós?

Pois é, a opressão social faz com que os cidadãos percam as respectivas identidades e, sufocados, pisados, passem a ser outras pessoas contra as próprias vontades.

Modernamente o diálogo pode ir muito além da tradicional forma presencial, como, por ilustração, as ferramentas digitais, tais como o blog e o e-mail, e as redes sociais, etc. Assim, não tenho dúvida de que a nossa união – presencial ou virtual – nos dará forças para articular um processo ininterrupto de troca em que múltiplas vozes co-construirão o novo conhecimento acerca das diversidades.

Cristalino está que isoladamente, melhor dizendo, cada qual no seu quadrado, não está surtindo o efeito que precisamos na desconstrução dos horríveis preconceitos que a população perpetua relativamente aos diferentes. Para que essa triste evidência seja transformada se faz necessário que mudemos a visão monológica da conversa para a visão dialógica.

Enquanto estivermos falando para o espelho não interagiremos o eu com o outro, razão porque não provocaremos a alteridade. Verdadeiramente será com a ideia da unidade, comunhão, que atingiremos a consciência humana.

A mais linda poesia que o ser humano já escreveu, na minha opinião, foi a Declaração Universal dos Direitos do Homem (ONU – 1948). Contudo, poucos a leem, sendo que muitos que o fazem não a entendem. Raros são os que sabem que a nossa Carta Cidadã a recepcionou, pelo que está o Brasil obrigado a cumpri-la. À vista disso é que o Brasil tornou-se uma Terra sem lei. Rasgamos a Constituição da República e, como consequência, terminamos com o Estado Democrático de Direito. Já pensaram?

Pois é, colocar o dedo na ferida é muito doído. Todavia, necessário para sairmos desse estado de torpor.

Com o presente artigo venho convidar a todos a refletirem sobre as ideias aqui contidas e, depois, praticarem sucessivos exercícios de acessibilidade atitudinal, a fim de concluírem pela ressignificação dos humanos diferentes. Somente através da educação dialógica é que conseguiremos um coração universal.

Lutemos pela INCLUSÃO SOCIAL já!"

quarta-feira, 25 de janeiro de 2017

Viagem ao século XIX


No dia 23/01 fiz um aterrorizante exercício mental ao ouvir a leitura do texto adaptado para a nossa realidade do Drácula, de Bram Stocker, no workshop "Histórias Extraordinárias", promovido pelo Centro Cultural do Banco do Brasil.

O clima que encontrei foi muito bacana, valendo dizer um teatro muito enfumaçado, com forte cheiro de queimado e uma música de terror ao fundo.

A leitura foi maravilhosa! Jimmy, como de hábito, encantou a todos. Meu menino, que completa 11 anos em fevereiro próximo, é um grande companheiro.





Histórias Extraordinárias:

"Com mediação da filósofa e escritora Marcia Tiburi, o projeto vai levar ao palco clássicos da Literatura Fantástica e de Terror, na forma de monólogos, seguidos de debate, com atores e os autores das adaptações.

O projeto une literatura, teatro e bate-papo em uma série mensal onde clássicos da “literatura fantástica” são adaptados para o teatro por importantes nomes da dramaturgia nacional e interpretados por atores consagrados do teatro e da TV, na forma de monólogos"


sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Dica de Curso

Vejam que opção interessante a proposta e os cursos que estão a nossa disposição na Escola de Filosofia "Passagens"! Farei o curso de "Introdução a Filosofia" e depois conto aqui como foi.








“PASSAGENS foi o nome de um projeto do pensador alemão Walter Benjamin, autor de uma obra filosófica crítica e utópica. Das lendas nas quais a história do projeto das Passagens está envolvido, consta que Benjamin poderia ter fugido para o Brasil. Seu destino teria sido completamente outro. E o nosso também.

O projeto das Passagens de Benjamin envolveu a observação dos mercados, das ruelas, das vitrines, dos cartazes, dos movimentos humanos, da moda, do tédio, dos livros, do que se mostra e do que se esconde em uma cidade tal como a onírica Paris dos anos 30 do século 20. O resultado foi um livro que até hoje encanta muita gente. Sabemos que os livros são portais de sonhos e esperanças, rastros de perguntas e respostas abertas a todas as leituras do mundo, por isso resolvemos dar um nome de livro à nossa escola.

O conceito das Passagens nos diz muitas coisas. Das cidades, do que acontece nelas, do que nesses espaços urbanos é sonho e do que neles é frustração. Pelas passagens, caminham pessoas concretas cheias de histórias e desejos. O Rio de Janeiro, que Benjamin não conheceu, São Paulo, Belo Horizonte, Manaus, Natal, Porto Alegre, poderiam ter sido objeto desse projeto. A fisionomia das cidades, dos lugares, dos espaços, é o que ele nos ajuda a ler. Hoje o conceito das Passagens nos surge como um projeto de compreensão das formações materiais e concretas dentro das quais e através das quais experimentamos a vida na diversidade de suas oportunidades, potências e intensidades.

Vielas, vãos, bueiros, calçadas, becos, viadutos, paredes, muros, subterrâneos, nichos, portas, janelas, pontes sob as quais uns descansam seus corpos perdidos enquanto outros, assustados, abrem seus olhos desamparados, tudo isso nos aparece para compor um cenário onde aprendemos a passar, a passear. A vida encontra lugares para exercitar-se, para continuar seu trajeto incerto. A vida é essa passagem onde aprendemos a ser, a vir a ser.

Pensamos que a expressão das Passagens possa ser uma perfeita metáfora da educação e da formação das pessoas. Que a educação e a formação possa ser devolvida, por meio desse conceito, à sua dimensão poética sem a qual está imediatamente dissolvida a dimensão humana em seu sentido integral.

Pensamos essa dimensão poética da educação como um lugar crítico e criativo em que a dimensão do outro, do que está aberto para nós, resulta na invenção de cada um. A dimensão do outro é a única forma pela qual as pessoas podem entrar em contato consigo mesmas.

Por isso, criamos cursos – como aqueles caminhos feitos nas ruas por passos humanos, como de rios que permitem navegar, como cursores que passeiam nas telas digitais de nossa época - com o objetivo de abrir os olhos, de fazer ver mais longe, para o que está além das crenças e das certezas imediatas da vida.”



PROFESSORES CONVIDADOS

Agostinho Ramalho
Juarez Tavares
Marcia Tiburi
Evandro Affonso Ferreira
Mariana de Assis Brasil Weigert
Rubens Casara
Charles Feitosa
Salo de Carvalho
Antonio Pedro Melchior
Júlia Studart
Marcelo Semer
Susana de Castro
Eduardo Guerreiro Losso
Geraldo Prado
Luciana Boiteux
Luciano Elia
Vanessa Berner 
Maria Cantinho
Marcio Sotelo Fellippe
Manoel Ricardo de Lima
Simone Mainieri Paulon

quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Entrevista de Deborah Prates para a Folha do IAB

Convido os amigos e amigas a conhecerem um pouco mais do meu ativismo lendo a entrevista - última página - publicada na Folha do IAB (Instituto IAB - Instituto dos Advogados Brasileiros) para a edição de janeiro/fevereiro. Obrigada.



sexta-feira, 23 de dezembro de 2016

Boas Festas Atitudinais 2016-2017

Desejo a todos os seres humanos uma mesa de Natal farta de reflexões e boas companhias. Assim, a nossa alma estará bem alimentada.

Desejo a todas e todos muita força para passar a limpo o passado, entender o presente e por o pé na estrada de 2017 trabalhando e desvendando um futuro mais promissor, apesar do medo que tanto nos inquieta. Afinal, só tem coragem aquela e aquele que venceu o medo, né?

Desejo, finalmente, que tenhamos a tenacidade para olhar para a vida e desafiá-la dizendo: VENHA, NÃO TENHO MEDO DE VIVÊ-LA!!!


Carinhosamente. Deborah Prates.

sábado, 17 de dezembro de 2016

Acessibilidade Atitudinal em Roda de Conversa Feminista


Como feminista sentí-me honrada em participar da Roda de Conversa intitulada "Prá lá e Prá Cá - O Direito à Cidade numa perspectiva feminista e antiracista", ocorrida em 17 de Dezembro de 2016 no Instituto Cultural Rose Marie Muraro - ICRM, localizado na Rua Hermenegildo de Barros, 44, Glória, RJ. Foi o último dia de uma Ocupação Feminista.

Fiz uma fala imersiva oferecendo vendas a todas as demais feministas e foquei na acessibilidade atitudinal como alavanca para a necessária transformação social. As mulheres ficaram impactadas em experimentar a cegueira e constatar o quanto é desumano a invisibilidade social que a coletividade impõe às pessoas com deficiência.

Em consequência do preconceito institucionalizado é que as cidades não foram pensadas para esse seguimento. O evento foi lindo! É isso; temos que ocupar todos os espaços das cidades.

Registro os meus sinceros agradecimentos à querida feminista Schuma Schumaher por ter me concedido essa inesquecível oportunidade.

***

Eternizo os nomes das maravilhosas feministas que dividiram as falas comigo. São elas:

- Tainá de Paula Kapaz - Arquiteta e Urbanista, Assessoria Técnica do MTST e integrante da #partidA Rio.

- Silvana Pissano - Arquiteta, feminista, Diretora Geral de Assentamentos Urbano da Prefeitura de Montevideo, integrante da Red Mujer e Habitat e da AFM - Articulação Feminista Marcosul.

- Ligia Batista - Pesquisadora da área de Segurança Pública da Anistia Internacional


- Marielle Franco - Socióloga, vereadora da Cidade do Rio de Janeiro.


 Sentadas em cadeiras de plástico brancas, estão Deborah Prates e Schuma Schumaher, da esquerda para a direita. Deborah discursa, enquanto Schuma está com venda nos olhos. Ao fundo, uma parede verde com vários instrumentos musicais.



Tomada de uma parte da roda de conversa. Todas as ouvintes estão com vendas distribuídas por Deborah, que está no canto direito da imagem.



Tomada da roda de conversa. Todas as ouvintes estão sentadas, com vendas nos olhos.

domingo, 11 de dezembro de 2016

Precisamos falar sobre violência contra mulheres com deficiência

Pelo abaixo exposto não restará dúvida de que falta diálogo entre os movimentos feministas e o movimento das pessoas com deficiência, destacando-se, para o momento, as mulheres com deficiência. É preciso praticar a sororidade para avançarmos na igualdade de gênero. Afinal, todas têm em comum a terrível opressão!

Prova dessa lacuna está na invisibilidade da mulher com deficiência. É notório a ausência de percepção das mulheres sem deficiência com relação as suas iguais com deficiência. Tanto é assim que nas rodas de conversas/eventos esse seguimento não é chamado. Eis a primeira violência contra as mulheres com deficiência!

Então, mister se faz traçar um breve panorama da gigantesca violência a que estão sujeitas as mulheres com deficiência, a fim de que a coletividade, consciente, passe a lhes dar voz, de sorte a levá-las ao empoderamento. Como conseqüência, saberão enfrentar a opressão, as situações de riscos, maus-tratos, coerção econômica, exploração de toda ordem, tanto no lar – dentro do seio familiar – como fora dele. A violência no âmbito doméstico deixa mais difícil a sua detecção por torná-la invisível à cegueira voluntária da sociedade.

Além das violências sofridas pelas demais mulheres, as com deficiência padecem também daquelas decorrentes do preconceito e seguida discriminação oriundas da deficiência. Por isso é que não são vistas como violências baseadas no gênero.

No entanto, os abusos contra mulheres com deficiência ultrapassam, em muito, os crimes que atingem as mulheres sem deficiência. Peculiar, valendo destacar que as mulheres com deficiência sofrem mais preconceito que os homens com deficiência.
Há um artigo intitulado Deficiência, direitos humanos e justiça de autoria de Débora Diniz, Lívia Barbosa e Wederson Rufino dos Santos, que traz à tona o império do paternalismo até mesmo com a deficiência, como mostra o pequeno trecho:

“Mas esse silêncio foi desafiado com a entrada de outras perspectivas analíticas ao modelo social, em especial com o feminismo. Não por coincidência, o modelo social da deficiência teve início com homens adultos, brancos e portadores de lesão medular (DINIZ, 2007, p. 60). (…) A inclusão social dessas pessoas não subverteria a ordem social, pois, no caso deles, o simulacro da normalidade era eficiente para demonstrar o sucesso da inclusão. Ainda hoje, os sinais de trânsito ou as representações públicas da deficiência indicam um cadeirante como ícone” – Deficiência, direitos humanos e justiça.

Reli, faz pouco, a obra O Corcunda de Notre Dame, na qual Victor Hugo descreve o personagem Quasímodo com os seguintes atributos: “Batizou seu filho adotivo, e o chamou Quasímodo, fosse por querer assinalar assim o dia em que o encontrara, fosse por querer caracterizar por meio daquele nome até que ponto a pobre criaturinha era incompleta e mal desabrochada. Com efeito, Quasímodo, zarolho, corcunda, torto, não deixava de ser um quase alguém”. (HUGO, Victor. O Corcunda de Notre-Dame. São Paulo: Editora Três, 1973, p. 120)

Como um “quase alguém”: era desse modo que a Idade Média enxergava as pessoas com deficiência. Inacreditavelmente em 2016 os humanos ainda veem os integrantes desse seguimento de forma idêntica. E por conta do machismo que nos assola é que a mulher com deficiência, simbolicamente, vale menos que o homem com deficiência.

Em 20 de dezembro de 1993 a ONU, através da Declaração sobre a Eliminação da Violência contra Mulheres, definiu a violência da seguinte forma:

      Artigo 1: O termo “violência contra mulheres” significa qualquer ato de violência baseada no gênero que resulte, ou provavelmente resulte, em dano ou sofrimento físico, sexual ou psicológico para as mulheres, incluindo ameaças de tais atos, coerção ou privação arbitrária de liberdade, que ocorram em público ou na vida particular.

    Artigo 2: A violência contra mulheres será entendida como aquela que abrange os seguintes tipos, sem se limitar a estes:

    Violência física, sexual e psicológica que ocorra na família, incluindo agressão, abuso sexual de meninas no lar, violência relacionada com o dote, estupro cometido pelo marido, mutilação de genitais femininos e outras práticas tradicionais danosas para mulheres, violência cometida por pessoa não-cônjuge e violência relacionada com a exploração;

    Violência física, sexual e psicológica que ocorra na comunidade geral, incluindo estupro, abuso sexual, assédio sexual e intimidação no trabalho, em instituições educacionais e outros lugares, tráfico de mulheres e prostituição forçada;

    Violência física, sexual e psicológica perpetrada ou deixada ocorrer pelo Estado, onde quer que ela ocorra.”

A moderna legislação constitucional (Constituição Cidadã e Convenção de Nova Iorque) e legislação infraconstitucional (Lei Maria da Penha e Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência) não foram capazes de terminar com as crueldades agora elencadas.

Por falta de representatividade – de inclusão nos movimentos feministas – é que os humanos se veem legitimados a abusar das mulheres com deficiência sem o menor sentimento de culpa.

O tratamento médico despendido a elas é, no mínimo, degradante. Comum é o SUS não ter, por ilustração, ginecologista que saiba atender/lidar com a mulher com deficiência. Inexistem mamógrafos adaptados e tantos outros aparelhos que se adequem às pessoas com deficiência. Os gestores e a sociedade civil precisam conhecer o desenho universal. Muitas cadeirantes retornam ao lar, confinamento, sem atendimento. Tremenda violência!

Houve um caso bastante emblemático de uma parturiente surda que deu a luz a um bebê e não sabia que estava grávida de gêmeos. Após o nascimento da primeira criança, por ignorância da equipe médica, que não conseguiu comunicar-se com a mulher surda em LIBRAS a segunda criança terminou morrendo. Inenarrável violência!

Outra mulher surda foi brutalmente agredida pelo marido e ao chegar na delegacia não conseguiu formalizar a notícia em decorrência de não haver profissional conhecedor da LIBRAS. Contundente violência!

Ainda hoje existem correntes (contrárias a boa legislação existente) que apoiam/obrigam o aborto e esterilização da mulher com deficiência, mesmo sem o seu consentimento; internação involuntária em diversas instituições; tratamentos psiquiátricos que incluem eletrochoque, eletroconvulsoterapia, além de outros requintes de crueldade com o fito de “anestesiar” a mulher com deficiência para a vida. É verdadeiro descalabro humanitário!

Comum é o relato de mulheres com deficiência dando conta de que são obrigadas a fazerem sexo com os parceiros, ante a impossibilidade de desvencilhamento deles em decorrência das deficiências. Afirmam que a oposição de resistências lhes renderiam: torturas, encarceramentos e falta de nutrição. Atos de imensuráveis violências físicas e emocionais!

A covardia nos casos de estupro se repete. Os homens ficam seguros, por exemplo, de que: a surda não terá como se expressar; a cega não terá como descrever a situação ocorrida ou o agressor; a cadeirante e a muletante não terão como correr, etc. A vulnerabilidade é total! Situação que prova ser a mulher com deficiência inessencial.

Mesmo nas grandes capitais as pessoas sem deficiência negam os fundamentais direitos a esse nicho da população. É comum as gestantes cegas ouvirem: Ah, você não tem juízo! Vai afogar, no primeiro banho, o neném na banheira. Você é irresponsável em ter um filho, quem vai criar? A criança vai cair do carrinho e você não vai perceber e ainda pode passar a roda na cabeça dela!

Logo, a sociedade não tolera a ideia de que a mulher com deficiência possa maternar ou, no reverso, possa optar pela interrupção da gravidez se assim o desejar.

Hodiernamente é indiscutível que, por mais severa que seja a deficiência, a mulher tem possibilidade de opinar em temas que lhe diga respeito em condições de igualdade com a mulher sem deficiência. É a liberdade ao próprio corpo.

No trabalho a situação de desprezo e descrédito não é diferente. Dá para contar nos dedos as mulheres sem deficiência que ocupam cargos no alto escalão nas grandes empresas. Particularmente, não conheço nenhuma mulher com deficiência na direção de alguma. Você conhece?

Nos parlamentos pouquíssimas mulheres cadeirantes ocupam um assento. Também na política não conheço nenhuma cega. Você identifica alguma?

A minha realidade foi transformada, drasticamente, em decorrência de cegueira em ambos os olhos há cerca de 10 anos. No balcão da vida, experimentei seus dois lados, pelo que tenho autoridade para afirmar o quão é humilhante e desumano ser mulher com deficiência nesse continental Brasil, tão inacessível, ante a institucionalização do preconceito.

Os advogados, que também deveriam zelar pelo cumprimento da democracia, igualmente discriminam as mulheres com deficiência, como prova o Provimento 164/2015 do CFOAB, que cria o Plano Nacional de Valorização da Mulher Advogada. No texto estão enumeradas as mulheres contempladas, sendo que nesse rol não estão as mulheres advogadas com deficiência. Estas foram excluídas pelas mulheres advogadas sem deficiência. Sororidade seletiva! Contradição?

Absolutamente esquecidas, ignoradas, nos parcos levantamentos e estudos sobre as mulheres com deficiência, estão aquelas com deficiência psicossocial e deficiência intelectual. A omissão e a falta de informação dos gestores são também forma de violência contra esse sofrido seguimento. Absoluto pouco caso!

As situações acima mostram, com clareza, o baixo conceito que a sociedade brasileira nutre pelas mulheres com deficiência, calcado, tão-só, nos respectivos estereótipos.

A ausência das acessibilidades em todas as suas nuanças, em especial a atitudinal, caracteriza uma das maiores violências contra as pessoas com deficiência, uma vez que lhes furta a oportunidade para a conquista da – tão sonhada – igualdade com quaisquer mortais.


Finalizo este artigo com uma reflexão: o tempo não está nem aí para a nossa vida. Porém, a nossa vida está intrinsecamente atrelada ao tempo. Falo do tempo presente; do aqui e agora. Desse modo, a falta das acessibilidades está subtraindo o tempo de vida das pessoas com deficiência em tempo real. Estas não têm o direito à cidade no sentido lato Sensu. Vale dizer que não me refiro, tão-só, a simples noção de ruas e praças. Quem irá restituir ao seguimento das pessoas com deficiência o tempo passado, perdido de vida? Mortos vivos? É necessário nervos de aço em mulheres de muita fibra!